26.4.09

Untraceable, 2008

Titulo em Português: Indetectável

Realizador: Gregory Hoblit

Este será talvez mais um filme de sexta-feira à noite, de sábado à tarde ou de domingo apenas, não é tanto um filme de acção, mas talvez de drama, crime, thriller, um filme de entretenimento que no entanto toca alguns assuntos que considero importantes, como prometido está aqui o trailer:




A história é no fundo simples: uma agente do FBI, Jennifer Marsh, (Diane Lane) investiga crimes na Internet. Durante o seu turno é feita uma denúncia por telefone de um site onde é mostrado, por vídeo e em directo, a tortura e assassínio de um gato. Posteriormente a parada aumenta e os torturados passam a ser seres humanos cujo tempo de vida é encurtado à medida que mais pessoas vão acedendo ao site ("Quantos mais virem, mais depressa ela morre.”). Os alvos deste assassino são as pessoas que colaboraram para a divulgação do suicídio do seu pai, transmitido num canal de televisão e divulgado na internet, bem como os agentes envolvidos na investigação. Escusado deveria ser dizer que a agente do FBI fica encarregue de encontrar o assassino e pronto, o final é um pouco óbvio de mais…

Não digo que seja um grande filme, não é. Tem pouca profundidade e é muito restrito. Tudo nele gira à volta da Internet e da tecnologia, tem uma visão um pouco unilateral da vida e da sociedade, mas não deixa de abordar questões muito importantes: o fácil acesso a documentos privados e informações pessoais, quer por parte das autoridades, quer por parte de criminosos; a falta de controlo sobre os conteúdos presentes na Internet; a diferença entre o que é socialmente aceite e o que não é poder não ser assim tão grande; o relacionamento não saudável com a Internet; e, por fim, a que penso ser a questão principal: a exploração da violência gratuita feita pelos meios de comunicação social sendo as audiências, o público, ou seja todos nós, disso cúmplices.

O método que o assassino utiliza para matar as suas vítimas põe-nos a nós, espectadores, utilizadores da Internet, num papel activo (que de facto temos na sociedade), responsabiliza-nos pelas mortes. O espectador confunde-se com o assassino, não sendo apenas um observador que consente mas, pelo contrário, desempenhando um papel activo. Quem será mais perturbado ou mais doente? O espectador que acede ao site mesmo sabendo que isso está a provocar a morte de uma pessoa ou o assassino que coloca a pessoa naquela situação? Será que as diferenças entre a transmissão da morte do pai de Owen Reilly e o site criado por este onde é mostrada a morte das vítimas em directo são assim tantas?

É posto em evidência uma vez mais o papel activo do espectador quando o assassino comenta no seu site (onde há minutos atrás tinha mostrado um vídeo onde aparecia a filha da agente Marsh): "Pensaram mesmo que ia deixar-vos fazer mal à menina?”

A morte do assassino é bastante irónica pois momentos antes ele mesmo estava a divagar sobre isso e sobre as futuras execuções que iriam ser transmitidas em directo por 10 dólares, acabando ele mesmo por ser executado em directo e de graça, o que é de imediato comentado no site por várias pessoas: "Hoje morreu um génio...”; "Graças a Deus que ele morreu”; "Como posso descarregar este vídeo?".

Tentativa de resumo: acho que este filme tenta despertar-nos para questões importantes, responsabilizar-nos em vez de nos deixar numa posição passiva, através do exagero, de uma hipotética situação levada ao limite das suas consequências, mas não sei se conseguirá fazer-nos dar mais do que uma volta na cama.


Owen Reilly: "- Se ninguém estivesse a ver, estarias sentado dentro de água. Mas toda a gente quer ver-te morrer e nem sequer te conhecem. Está tão rápido desta vez... Deve estar a passar de boca em boca, porque te deixei ficar com o crachá."

12.4.09

Henri Cartier-Bresson

A melhor, e talvez única, maneira de conhecer um fotógrafo é através das suas fotografias (tal como um realizador dificilmente se conhece se dele não se visionar nenhum filme). Se insistirem muito posso dizer-vos que Henri Cartier-Bresson nasceu a 22 de Agosto de 1908 e morreu a 2 de Agosto de 2004 e isto já um pouco contrariada...





Livorno, Itália, 1933





Newcastle-on-Tyne, Inglaterra, 1978





Lisboa, 1955




Sevilha, Espanha, 1933




Lavadeiras, Súzdal, U.R.S.S., 1972

Acho as suas fotografias muito tocantes, falam-nos dos movimentos de todos os dias e dos pequenos gestos quotidianos e vulgares com uma força enorme. Penso que essa força vem da intimidade presente no seu trabalho. Cartier-Bresson fotografa uma enorme diversidade de pessoas muito distantes de nós e também muito distantes umas das outras, quer pela época quer pela cultura em que estão inseridas, e mesmo assim há algo muito intenso que todas partilham umas com as outras e até connosco que observamos de longe ou talvez de não tão longe assim. Talvez seja aquilo a que chamam humanidade, os “locais que no fundo são iguais em todos nós”.

A ironia está muitas vezes presente no trabalho deste fotógrafo: o homem que conversa com o gato numa rua de Nova Iorque, as duas senhoras que caminham numa rua de Atenas por baixo da varanda de uma casa meio desfeita, o homem do qual apenas se vê uma perna e um braço a saírem de uma cela, as crianças que brincam nas ruínas de um edifício (numa das fotografias acima), o homem que observa uma paisagem na Suíça e que tem por cima da cabeça um peso ligado a um sistema de roldanas, os adolescentes aos beijos no meio das lápides...

Michael Brenson escreve, na introdução de um livro que tenho, (uma pequena compilação de algumas fotografias de Cartier-Bresson da editora Thames & Hudson) que Henri Cartier-Bresson faz questionar, com o seu trabalho, o conceito de arte como imposição de uma ordem por parte do artista. Fala das fotografias deste fotógrafo como se fossem o registo dos movimentos cegos do tempo, como se por acaso os componentes de um momento formassem uma ordem e o papel do artista fosse ter a sensibilidade para se aperceber desse momento e a técnica para o capturar.

Eu encontrei este fotógrafo por acaso, cruzámo-nos na sala, ele estava lá em cima da mesa e pumba! Acho que conheço muito pouco dele, apenas o álbum Des Européens (Europeus) e um quase nada mais. Espero ter-vos despertado a curiosidade, ou mais importante ainda, que as fotografias o tenham feito. Podem encontrar mais trabalhos deste fotógrafo no site da Magnum Photos.

“I’m after the one unique picture whose composition possesses such vigour and richness, and whose content so radiates outwards from it, that this single picture is a whole story in itself.”

H.C.B.